A preparação para concursos exige longas horas de estudos, disciplina rígida e muitas renúncias – e, não raro, o sono é, muitas vezes, um dos primeiros elementos sacrificados. A privação do sono tornou-se um problema comum da vida moderna, especialmente entre estudantes que se preparam para concursos. A pressão por produtividade e o medo de não aproveitar cada minuto levam muitos a reduzirem ou fragmentarem o tempo de descanso, acreditando que dormir menos significa estudar mais.
A qualidade do sono exerce um papel fundamental no desempenho dos estudantes, estando diretamente relacionada aos processos de atenção, memória e consolidação do aprendizado. Durante o sono, especialmente nas fases REM e de sono profundo, o cérebro organiza e fixa as informações adquiridas ao longo do dia, o que torna o estudo mais eficiente e reduz a sensação de fadiga mental.
Trocar a noite de sono pelo dia é um erro comum entre concurseiros que buscam aproveitar a tranquilidade noturna para estudar. Embora pareça vantajoso, essa inversão gera consequências importantes para o corpo e para o rendimento cognitivo.
Nosso organismo funciona em sincronia com o ritmo circadiano, que regula hormônios, disposição, memória e concentração. Quando um concurseiro passa a virar noites ou a dormir em horários irregulares, o organismo mostra o resultado: dificuldade de foco, irritabilidade, falhas de memória, queda de desempenho e maior sensação de esgotamento.
Progressivamente, a qualidade insuficiente do sono compromete o emocional, ampliando chances de ansiedade e desânimo.
À noite, produzimos melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, essencial para regular o ciclo do sono e garantir a restauração física e mental. Para que ela seja produzida adequadamente, precisamos do escuro e de um período de descanso contínuo. Ao viramos a noite estudando, interferimos nesse processo natural.
Recorrer ao uso de medicação, seja para induzir o sono, seja para aumentar o estado de alerta, deve ser realizados sob prescrição médica e com acompanhamento regular, mesmo que, possam ser úteis em casos específicos, a automedicação é perigosa. O uso inadequado pode criar dependência, alterar o ritmo circadiano e comprometer ainda mais a capacidade de concentração. Em vez de servir como solução, a medicação se torna, frequentemente, parte do problema.
Por isso, a melhor estratégia é trabalhar o sono como um pilar essencial e inegociável na rotina de estudos. Criar horários regulares, se exercitar durante o dia, reduzir telas antes de dormir, evitar cafeína à noite, organizar pausas durante o dia e ajustar as expectativas podem fazer a diferença. Dormir bem é um investimento importante para quem deseja aprender mais, render melhor e sustentar uma rotina de longo prazo.
Autor: Danilo Caillaux.
Médico. Especialista em Neurologia pelo Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).